{"id":6402,"date":"2026-09-10T15:22:08","date_gmt":"2026-09-10T18:22:08","guid":{"rendered":"https:\/\/vitrinedafama.com.br\/index.php\/2026\/09\/10\/ressonancia-exige-olhar-medico-atento-para-identificar-sinais-precoces-da-doenca\/"},"modified":"2026-09-10T15:22:08","modified_gmt":"2026-09-10T18:22:08","slug":"ressonancia-exige-olhar-medico-atento-para-identificar-sinais-precoces-da-doenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vitrinedafama.com.br\/index.php\/2026\/09\/10\/ressonancia-exige-olhar-medico-atento-para-identificar-sinais-precoces-da-doenca\/","title":{"rendered":"Resson\u00e2ncia exige olhar m\u00e9dico atento para identificar sinais precoces da doen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-style:italic;font-size:1.1em;margin-bottom:1em\">A an\u00e1lise cuidadosa das imagens, associada \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica e ao conhecimento t\u00e9cnico do especialista, pode ser decisiva para reconhecer altera\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 doen\u00e7a de Creutzfeldt-Jakob<\/p>\n<p>A doen\u00e7a de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) \u00e9 uma enfermidade neurodegenerativa rara e de evolu\u00e7\u00e3o extremamente r\u00e1pida, marcada por uma deteriora\u00e7\u00e3o cognitiva progressiva que pode ocorrer em poucos meses. Em meio aos desafios para alcan\u00e7ar um diagn\u00f3stico precoce, a resson\u00e2ncia magn\u00e9tica do enc\u00e9falo, especialmente quando realizada com sequ\u00eancias adequadas e analisada por profissionais experientes, ocupa papel de destaque na investiga\u00e7\u00e3o. Para os neurologistas Marco Orsini, coordenador do Centro de Estudos Niter\u00f3i D&#8217;Or, e Marcos RG de Freitas, al\u00e9m da neurorradiologista Lara A. Brand\u00e3o, o valor do exame n\u00e3o est\u00e1 apenas na tecnologia empregada, mas principalmente na capacidade m\u00e9dica de interpretar as imagens em conjunto com a hist\u00f3ria e os achados cl\u00ednicos do paciente.<\/p>\n<p>Diferentemente da doen\u00e7a de Alzheimer, na qual o comprometimento cognitivo costuma evoluir de maneira lenta e gradual ao longo de anos, a DCJ apresenta uma progress\u00e3o muito mais acelerada. O paciente pode inicialmente apresentar altera\u00e7\u00f5es de mem\u00f3ria, aten\u00e7\u00e3o e capacidade de realizar atividades cotidianas, seguidas por manifesta\u00e7\u00f5es motoras, mioclonias, altera\u00e7\u00f5es da linguagem, dificuldades visuais e perda progressiva da capacidade de comunica\u00e7\u00e3o. Em determinados casos, a evolu\u00e7\u00e3o pode levar rapidamente a um quadro de grave desconex\u00e3o do paciente com o ambiente.<\/p>\n<p>A sobrevida m\u00e9dia ap\u00f3s o in\u00edcio dos sintomas costuma ser de aproximadamente quatro a seis meses, e cerca de 70% dos pacientes morrem no primeiro ano. Existem, por\u00e9m, casos de evolu\u00e7\u00e3o mais lenta, nos quais a doen\u00e7a pode se prolongar por at\u00e9 dois anos. Essa velocidade torna fundamental reconhecer os sinais o quanto antes e diferenciar a DCJ de outras condi\u00e7\u00f5es capazes de provocar uma dem\u00eancia rapidamente progressiva.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a resson\u00e2ncia magn\u00e9tica do enc\u00e9falo ganha import\u00e2ncia, principalmente pela utiliza\u00e7\u00e3o da sequ\u00eancia de difus\u00e3o, uma t\u00e9cnica capaz de avaliar o movimento das mol\u00e9culas de \u00e1gua dentro dos tecidos. Trata-se de uma sequ\u00eancia r\u00e1pida, que pode durar cerca de 40 a 60 segundos, e que consegue demonstrar altera\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 doen\u00e7a em uma fase precoce, inclusive quando outras sequ\u00eancias da resson\u00e2ncia ainda n\u00e3o apresentam altera\u00e7\u00f5es evidentes.<\/p>\n<p>Entre os achados mais caracter\u00edsticos est\u00e3o as \u00e1reas de restri\u00e7\u00e3o \u00e0 difus\u00e3o no c\u00f3rtex cerebral, respons\u00e1veis pelo chamado cortical ribboning, al\u00e9m de altera\u00e7\u00f5es nos n\u00facleos da base, estruturas de subst\u00e2ncia cinzenta localizadas profundamente no c\u00e9rebro. Esses sinais refletem a intensa disfun\u00e7\u00e3o e les\u00e3o neuronal provocadas pela doen\u00e7a e podem surgir precocemente durante a evolu\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Uma metan\u00e1lise publicada na European Radiology em 2021, envolvendo 15 estudos e 1.144 pacientes, apontou sensibilidade entre 90% e 95% para a sequ\u00eancia de difus\u00e3o na identifica\u00e7\u00e3o de altera\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 DCJ. O resultado demonstra o potencial da resson\u00e2ncia quando utilizada de maneira adequada e interpretada dentro do contexto cl\u00ednico.<\/p>\n<p>Para Marco Orsini e Marcos RG de Freitas, entretanto, existe um ponto fundamental que n\u00e3o pode ser ignorado: solicitar uma resson\u00e2ncia n\u00e3o significa simplesmente receber um laudo e encerrar a investiga\u00e7\u00e3o. O m\u00e9dico respons\u00e1vel pelo acompanhamento precisa conhecer as imagens e saber o que est\u00e1 procurando a partir dos dados obtidos no exame neurol\u00f3gico e na avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que a leitura baseada exclusivamente no laudo possa fazer com que informa\u00e7\u00f5es importantes presentes nas imagens passem despercebidas. Segundo os especialistas, o m\u00e9dico que j\u00e1 busca diretamente a conclus\u00e3o escrita pode ser induzido ao erro por aquilo que n\u00e3o foi descrito ou valorizado na interpreta\u00e7\u00e3o inicial.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o se torna ainda mais relevante em exames neurol\u00f3gicos complexos. N\u00e3o basta pedir uma resson\u00e2ncia sem ter uma hip\u00f3tese cl\u00ednica e sem saber quais informa\u00e7\u00f5es devem ser procuradas. O exame de imagem precisa responder \u00e0s perguntas levantadas pela avalia\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. Quando o neurologista identifica determinados sinais no paciente, \u00e9 necess\u00e1rio buscar nas imagens a correspond\u00eancia para esses achados.<\/p>\n<p>Essa integra\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m explica a import\u00e2ncia da rela\u00e7\u00e3o entre o neurologista e o neurorradiologista. A experi\u00eancia do profissional respons\u00e1vel pela an\u00e1lise das imagens pode fazer diferen\u00e7a na identifica\u00e7\u00e3o de altera\u00e7\u00f5es discretas ou precoces. Em algumas situa\u00e7\u00f5es, o problema est\u00e1 presente no exame, mas n\u00e3o \u00e9 percebido em uma primeira avalia\u00e7\u00e3o simplesmente porque n\u00e3o houve uma an\u00e1lise direcionada para aquela possibilidade diagn\u00f3stica.<\/p>\n<p>A neurorradiologista Lara A. Brand\u00e3o, chefe do Instituto de Resson\u00e2ncia Magn\u00e9tica, no Rio de Janeiro, ressalta justamente a import\u00e2ncia do conhecimento especializado para reconhecer padr\u00f5es que podem ser decisivos na investiga\u00e7\u00e3o da DCJ. A interpreta\u00e7\u00e3o adequada da sequ\u00eancia de difus\u00e3o pode acelerar o diagn\u00f3stico, reduzir a necessidade de investiga\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias e contribuir para o encaminhamento mais r\u00e1pido para exames confirmat\u00f3rios.<\/p>\n<p>A resson\u00e2ncia tamb\u00e9m apresenta uma vantagem importante por ser um m\u00e9todo n\u00e3o invasivo e n\u00e3o utilizar radia\u00e7\u00e3o ionizante. Al\u00e9m de contribuir para a identifica\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es sugestivos da DCJ, o exame ajuda a excluir outras causas de dem\u00eancia rapidamente progressiva, inclusive algumas condi\u00e7\u00f5es potencialmente trat\u00e1veis, como determinados tumores e outras altera\u00e7\u00f5es estruturais.<\/p>\n<p>Outros exames tamb\u00e9m fazem parte da investiga\u00e7\u00e3o. O eletroencefalograma pode apresentar complexos peri\u00f3dicos considerados caracter\u00edsticos da DCJ, mas sua sensibilidade \u00e9 menor, especialmente nas fases iniciais. Estudos apontam sensibilidade aproximada de 44% a 46% para o EEG, enquanto a resson\u00e2ncia com sequ\u00eancia de difus\u00e3o apresenta desempenho significativamente superior para detectar as altera\u00e7\u00f5es caracter\u00edsticas.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise do l\u00edquido cefalorraquidiano tamb\u00e9m pode contribuir para a investiga\u00e7\u00e3o. A prote\u00edna 14-3-3 \u00e9 um marcador de les\u00e3o neuronal utilizado nos crit\u00e9rios diagn\u00f3sticos, mas sua especificidade \u00e9 limitada, j\u00e1 que pode estar aumentada em outras doen\u00e7as que provocam intensa destrui\u00e7\u00e3o neuronal. O desenvolvimento do RT-QuIC, por sua vez, representou um avan\u00e7o importante por permitir a detec\u00e7\u00e3o indireta da prote\u00edna pri\u00f4nica patol\u00f3gica no l\u00edquido cefalorraquidiano, apresentando elevada especificidade, citou a pesquisadora Eduarda Iennaco.<\/p>\n<p>A pesquisadora afirma que embora o RT-QuIC seja atualmente um dos exames laboratoriais mais precisos para a investiga\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, a resson\u00e2ncia oferece uma informa\u00e7\u00e3o imediata sobre o padr\u00e3o de comprometimento cerebral. Por isso, a combina\u00e7\u00e3o entre avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, resson\u00e2ncia com difus\u00e3o, EEG e biomarcadores do l\u00edquido cefalorraquidiano aumenta a seguran\u00e7a do processo diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia dos especialistas tamb\u00e9m mostra que a medicina de imagem n\u00e3o deve ser tratada como uma etapa isolada. A tecnologia oferece recursos cada vez mais avan\u00e7ados, mas a interpreta\u00e7\u00e3o depende do conhecimento de quem analisa o exame e, principalmente, da capacidade de relacionar os achados radiol\u00f3gicos ao quadro apresentado pelo paciente.<\/p>\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 compartilhada na pr\u00e1tica por Marco Orsini, que relata discutir seus pr\u00f3prios resultados com Lara A. Brand\u00e3o. Segundo ele, em algumas ocasi\u00f5es, houve frustra\u00e7\u00e3o diante da incompatibilidade entre aquilo que era observado clinicamente e o que aparecia inicialmente nas imagens. Situa\u00e7\u00f5es como essa refor\u00e7am a necessidade de di\u00e1logo entre os profissionais, especialmente quando existe uma discrep\u00e2ncia entre os sintomas, o exame neurol\u00f3gico e os achados radiol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>A mensagem central dos especialistas \u00e9 que uma resson\u00e2ncia n\u00e3o deve ser interpretada como uma fotografia independente da hist\u00f3ria do paciente. O exame precisa fazer parte de um processo m\u00e9dico mais amplo, no qual cada imagem seja analisada com uma pergunta cl\u00ednica em mente.<\/p>\n<p>Em casos de dem\u00eancia rapidamente progressiva, a realiza\u00e7\u00e3o precoce de uma resson\u00e2ncia cerebral com sequ\u00eancia de difus\u00e3o pode ser fundamental. Mas, t\u00e3o importante quanto realizar o exame, \u00e9 garantir que ele seja tecnicamente adequado e analisado por um profissional capacitado para reconhecer altera\u00e7\u00f5es sutis.<\/p>\n<p>Como resume Marco Orsini, &#8220;A tecnologia produz a imagem. O olhar m\u00e9dico encontra o diagn\u00f3stico&#8221;. A frase sintetiza uma quest\u00e3o essencial da medicina contempor\u00e2nea: mesmo diante de equipamentos cada vez mais sofisticados, a tecnologia n\u00e3o substitui o racioc\u00ednio cl\u00ednico. \u00c9 a combina\u00e7\u00e3o entre conhecimento, experi\u00eancia, investiga\u00e7\u00e3o direcionada e di\u00e1logo entre especialistas que permite transformar uma imagem em informa\u00e7\u00e3o capaz de contribuir para um diagn\u00f3stico mais preciso e, principalmente, mais precoce.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/us-central1-pulsebrand-plataforma.cloudfunctions.net\/trackPixel?c=5b7b4b7d-a01d-4051-8fc4-52fb20bfb2a4&amp;v=d8815633-d217-46c1-8388-93ba8de47eb8&amp;p=881a33ed-2087-45c5-80f1-767341edd15c\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\"\" style=\"display:none\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A an\u00e1lise cuidadosa das imagens, associada \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica e ao conhecimento t\u00e9cnico do especialista, pode ser decisiva para reconhecer altera\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 doen\u00e7a de Creutzfeldt-Jakob<\/p>\n","protected":false},"author":3647118390,"featured_media":6401,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-6402","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vitrinedafama.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6402","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vitrinedafama.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vitrinedafama.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vitrinedafama.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3647118390"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vitrinedafama.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6402"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vitrinedafama.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6402\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vitrinedafama.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6401"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vitrinedafama.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6402"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vitrinedafama.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6402"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vitrinedafama.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6402"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}