Projeto criado para reduzir o tempo entre diagnóstico e cirurgia desloca equipes especializadas até pacientes em regiões distantes e aguarda contratualização para ampliar atendimento pelo SUS
Em situações de emergência neurológica, o tempo pode ser determinante para o desfecho de um paciente. Em Mato Grosso, onde as grandes distâncias entre os municípios e os centros de referência representam um desafio adicional para o atendimento de alta complexidade, uma iniciativa vem propondo uma mudança na lógica tradicional das transferências hospitalares: em vez de levar o paciente até o especialista, levar o especialista até o paciente.
É essa a proposta do Neurocirurgiões no Ar, projeto idealizado pelo neurocirurgião Wilson Guimarães Novais, que utiliza uma estrutura de transporte aéreo para deslocar médicos especializados, materiais e suporte técnico até hospitais do interior do estado.
Com 903 mil quilômetros quadrados e população superior a 3,6 milhões de habitantes, segundo dados do IBGE, Mato Grosso possui municípios separados por centenas de quilômetros da capital, Cuiabá. Em casos como traumatismos cranianos, hematomas intracranianos, lesões graves da coluna e determinados quadros de acidente vascular cerebral (AVC) com indicação neurocirúrgica ou neurointervencionista, o tempo necessário para uma transferência pode representar um fator crítico.
Especialistas vão até o hospital onde o paciente está
O diferencial do modelo está justamente na inversão da lógica convencional. Quando o hospital de origem reúne as condições necessárias para a realização do procedimento, a equipe especializada parte de Cuiabá diretamente para a unidade onde o paciente já está internado.
O deslocamento é realizado pela aeronave Neuro One, que transporta os neurocirurgiões e os materiais específicos necessários para cada intervenção.
A aeronave, no entanto, não funciona como UTI aérea e não transporta pacientes. Sua finalidade é aproximar rapidamente a equipe médica e os recursos especializados dos hospitais do interior, evitando, quando clinicamente possível, que pacientes em condições delicadas precisem enfrentar longas transferências rodoviárias.
O acompanhamento não termina com a cirurgia. Por meio da telemedicina, os especialistas permanecem em contato com a equipe local e participam do acompanhamento do paciente durante o pós-operatório até a alta.
“Não basta ir ao interior, operar o paciente e voltar. Nós damos o seguimento por telemedicina até que ele tenha alta.” Wilson Guimarães Novais, neurocirurgião e idealizador do projeto
Estrutura preparada para atendimentos de emergência
A iniciativa conta com a experiência da MedNeuro, fundada em 2001, e com um corpo clínico formado por neurocirurgiões titulados pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia.
A estrutura foi planejada para funcionar em regime de acionamento 24 horas por dia, sete dias por semana, com a composição da equipe definida de acordo com as características e necessidades de cada caso.
Colíder foi escolhida como município-piloto
Um dos primeiros locais a receber a iniciativa foi Colíder, município situado a aproximadamente 650 quilômetros ao norte de Cuiabá.
O projeto foi apresentado no Hospital Santa Inês, em julho de 2026, com participação da gestão municipal e de profissionais da rede local. A implantação também envolveu a avaliação de pacientes que aguardavam atendimento especializado na área de coluna.
Outro deslocamento ocorreu em Nortelândia, onde a equipe levou suporte especializado para um caso de urgência. A experiência mostrou, na prática, como a utilização da aviação pode aproximar profissionais especializados de regiões distantes sem romper a continuidade do atendimento no hospital de origem.
O modelo, entretanto, não pretende substituir a estrutura existente nos municípios. A proposta depende da integração entre regulação, hospitais, profissionais locais, transporte aéreo e equipe especializada.
Quando tempo também é tratamento
Em emergências neurológicas tempo-dependentes, a rapidez no atendimento pode ser determinante. No caso do AVC, por exemplo, a assistência precoce é fundamental para ampliar as possibilidades de recuperação. A mesma lógica se aplica a determinadas hemorragias intracranianas, traumatismos graves e compressões agudas do sistema nervoso.
Além da questão clínica, a permanência do paciente em seu próprio município pode representar benefícios para a família e para a continuidade do cuidado. A redução da necessidade de remoções também pode contribuir para uma utilização mais estratégica da estrutura hospitalar regional, reservando transferências para situações que realmente exijam recursos inexistentes na unidade de origem.
Projeto aguarda contratualização para ampliar atendimento pelo SUS
A Prefeitura de Colíder informou que o Governo de Mato Grosso manifestou interesse em contratar o serviço e incorporá-lo à rede estadual. Atualmente, o projeto aguarda a formalização dessa contratualização, etapa necessária para que o modelo possa ser ampliado de maneira regular dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).
A eventual contratação estadual poderá estabelecer fluxos de acionamento, integração com a regulação, definição dos hospitais aptos a receber determinados procedimentos e mecanismos de financiamento contínuo.
A proposta é que, com protocolos previamente definidos, a equipe local possa discutir o caso, confirmar a indicação do procedimento e acionar o deslocamento especializado de maneira mais rápida e organizada.
Uma resposta à geografia do estado
A distância entre os municípios continuará sendo uma característica de Mato Grosso. O que pode mudar é a forma como a rede de saúde responde às emergências que acontecem longe dos grandes centros.
O Neurocirurgiões no Ar foi criado justamente para enfrentar esse desafio: aproximar conhecimento especializado, equipe médica e recursos de hospitais que já possuem estrutura para atender determinados casos.
Com a estrutura médica organizada, aeronave disponível e experiências-piloto já realizadas, a próxima etapa é a formalização da contratualização com o Estado. Se incorporado à rede pública, o modelo poderá ampliar o acesso à neurocirurgia de urgência para pacientes que vivem distante da capital.
Em um território de dimensões continentais, a iniciativa parte de uma premissa simples: quando o atendimento especializado consegue atravessar as distâncias, o local onde o paciente está deixa de ser um obstáculo tão determinante para o acesso ao cuidado.
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